A mão de uma pessoa repousa sobre o tronco de uma árvore em uma floresta.
FAO / Cristian Palacios Felte A mão de uma pessoa repousa sobre o tronco de uma árvore em uma floresta

Relatório da FAO destaca iniciativa do povo Xukuru, em Pernambuco, que aplicou conhecimento ancestral para restaurar 91,7 hectares; Brasil também empreende esforços conjuntos com Argentina e Paraguai para resgatar Mata Atlântica.

O relatório sobre o “Estado das Florestas no Mundo”, de 2026, lançado nesta segunda-feira, atesta que a restauração das matas proporciona benefícios duradouros para a biodiversidade, clima, segurança alimentar e desenvolvimento.

De acordo com os dados reunidos pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura, FAO, governos de 91 países prometeram restaurar de 190 milhões de hectares de florestas.

Conhecimento ancestral em ação

O relatório contém 18 estudos de caso, sendo que dois deles envolvem o Brasil.

Um dos projetos é liderado pelo povo indígena Xukuru, que vive no interior do Estado de Pernambuco. O grupo já conseguiu restaurar 91,7 hectares nas montanhas Ororubá, um ecossistema rochoso no bioma da caatinga.

Eles priorizam áreas com significado sagrado e espiritual e que tenham potencial de recuperação. O foco é a restauração biocêntrica, uma técnica baseada no conhecimento ancestral indígena, de acordo com a qual as necessidades dos seres humanos não são consideradas mais importantes do que as de outros seres vivos.

Os Xukuru devolveram pedras às formações rochosas e construíram barreiras para retardar o escoamento da água, reter sedimentos e acumular matéria orgânica, melhorando a umidade do solo e criando condições para a regeneração natural. 

Essa estratégia, que conta com apoio da FAO, está dando sinais visíveis de recuperação ecológica, incluindo o retorno da fauna e da flora e o ressurgimento de fontes de água.

Um grupo de pessoas da etnia Yanomami caminhando por uma clareira gramada na floresta.
Reprodução Cena do filme “A Queda do Céu”

Restauração em larga escala da Mata Atlântica

O segundo projeto é o Pacto Trinacional da Mata Atlântica, que reúne Argentina, Brasil e Paraguai para responder a uma necessidade urgente de restauração em larga escala.

Atualmente, a Mata Atlântica possui menos de 30% da sua cobertura original, após séculos de expansão agrícola, pecuária, urbanização e extração de madeira.

O projeto aposta em um sistema de governança de baixo para cima, onde múltiplos atores, setores e regiões integram o conhecimento e as necessidades de populações rurais e povos indígenas.

O foco é a criação de “paisagens multifuncionais”, que articulam a restauração de ecossistemas com atividades produtivas, segurança alimentar, desenvolvimento rural e melhoria dos meios de subsistência.

A iniciativa tem um forte componente tecnológico. Anualmente, são produzidos mapas de alta resolução das mudanças na cobertura e no uso da terra, utilizando imagens de satélite e computação em nuvem.

Restaurar 12 milhões de hectares até 2030

O estudo da FAO também reconhece avanços na legislação brasileira, citando a Lei 12.651, que estabelece obrigações juridicamente vinculantes de restaurar a vegetação nativa em áreas de preservação permanente e reservas legais. 

Tais obrigações são operacionalizadas pelo Decreto nº 8.972, de 2017, que institui a Política Nacional de Recuperação da Vegetação Nativa.

A meta desta política é restaurar 12 milhões de hectares de florestas até 2030.

Um bombeiro caminha por uma área tomada pela fumaça e com árvores queimadas após um incêndio florestal em Ille-sur-Tet, França.
Adobe Stock/Arafat Um bombeiro observa os restos fumegantes de um incêndio florestal no sul da França

A escala da degradação

O diretor-geral da FAO, Qu Dongyu afirmou que a restauração de florestas e paisagens é mais do que uma prioridade ambiental, “é um investimento estratégico em sistemas agroalimentares resilientes e desenvolvimento rural”.

As florestas cobrem cerca de 32% da superfície da Terra, armazenam 714 gigatoneladas de carbono e abrigam até 80% da biodiversidade.

No entanto, estima-se que 489 milhões de hectares de floresta foram perdidos entre 1990 e 2025 devido ao desmatamento. Além disso, mais de 460 milhões de hectares estão degradados em todo o mundo.

Todos os anos, cerca de 127 milhões de hectares de floresta são afetados por incêndios, com danos adicionais causados por insetos, doenças e eventos climáticos severos.

Segundo a FAO, restaurar mais de 1 bilhão de hectares de terras degradadas poderia gerar US$ 1,8 trilhão por ano em benefícios, incluindo aumento da biodiversidade, melhor regulação da água e solos mais saudáveis.

*Felipe de Carvalho é jornalista da ONU News português

Fonte: ONU NEWS

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