Uma fila de carros aguarda no trânsito de inverno enquanto fumaça branca sobe dos escapamentos em uma rua ensolarada da cidade.
© Adobe Stock/Nady Os gases de escape dos carros contribuem significativamente para as emissões de dióxido de carbono.

Relatório Lancet Countdown 2026 alerta: aumento da temperatura já custa 6,7 bilhões de horas de trabalho no Brasil afetando agro e construção; eventos extremos em Angola e Moçambique aceleram fome severa e endemias de malária, cólera e desnutrição.

Os impactos da crise climática sobre a saúde humana estão se acelerando de forma alarmante, revela um novo estudo divulgado às vésperas da Conferência da ONU sobre Mudanças Climáticas, COP31.

O relatório do Lancet Countdown 2026 foi produzido por 146 especialistas de 71 instituições internacionais em colaboração com entidades como a Fiocruz.

Ritmo superior ao de uma década

A mortalidade por calor extremo, as secas prolongadas e a disseminação de doenças crescem em ritmo superior ao de uma década atrás, superando os esforços de adaptação e mitigação ao redor do globo.

As emissões contínuas de gases de efeito estufa atingiram níveis recordes. A situação causou um aumento de cerca de 36% nas mortes médias anuais associadas às altas temperaturas no período pós-Acordo de Paris em comparação com a década anterior. 

Vista panorâmica da central termoelétrica a carvão de Belchatow em Zlobnica, Polônia, mostrando suas torres de resfriamento e altas chaminés listradas liberando colunas de fumaça sobre uma vasta paisagem de mineração a céu aberto sob um céu nublado.
© Climate Visuals/Anna Liminowi Análise global demonstra que nenhuma região está imune

Diante dessa discrepância entre a degradação ambiental e a resposta dos governos, especialistas exigem que as mudanças climáticas sejam formalmente reconhecidas pela Organização Mundial da Saúde, OMS, e por mecanismos das Nações Unidas como uma emergência de saúde pública global.

Cenário de emergência

Esse cenário de emergência manifesta-se com severidade na América Latina e no Brasil. 

No continente sul-americano, as mortes anuais atribuídas a ondas de calor mais que dobraram, ultrapassando 13 mil mortes por ano e atingindo de maneira desproporcional populações vulneráveis, como idosos com mais de 65 anos, crianças e pessoas com comorbidades. 

No Brasil, os óbitos associados ao calor extremo quadruplicaram em relação aos anos 1990. 

Em paralelo, o aumento de queimadas na Amazônia e no Pantanal elevou a poluição do ar por material particulado fine e fumaça tóxica, acarretando milhares de mortes prematuras por complicações respiratórias e gerando forte sobrecarga sobre os atendimentos de emergência do Sistema Único de Saúde.

Prejuízos socioeconômicos

Além do impacto direto na mortalidade e na infraestrutura hospitalar, a crise climática impõe enormes prejuízos socioeconômicos e agrava a distribuição de enfermidades transmissíveis. 

Vista aérea de uma pequena ilha tropical em Phuket, Tailândia, rodeada por águas rasas turquesa e recifes de coral, com barcos ancorados perto da praia de areia.
© OMM/Mansour Mohsen Relatório do Lancet Countdown 2026 foi produzido por 146 especialistas de 71 instituições internacionais

No Brasil, a perda potencial de horas de trabalho ao ar livre devido ao estresse térmico atinge 6,7 bilhões de horas anuais, afetando principalmente a agricultura e a construção civil, o que representa um prejuízo de cerca de US$ 17,7 bilhões por ano, ou 1% do Produto Interno Bruto, PIB, nacional. 

Ao mesmo tempo, as alterações de temperatura e precipitação expandiram o alcance territorial do vetor Aedes aegypti, promovendo surtos recordes de dengue, febre chikungunya e zika.

Angola e Moçambique

Em outros países de língua portuguesa, como Angola e Moçambique, a realidade é considerada grave devido às limitações na capacidade de adaptação infraestrutural. 

O avanço de eventos meteorológicos extremos intensifica a insegurança alimentar severa e acelera o contágio de febre amarela, malária, cólera e febres de veiculação hídrica após inundações, resultando em altas taxas de desnutrição infantil e sobrecarga dos sistemas de saúde locais.

A análise global demonstra que nenhuma região está imune. A Europa consolida-se como um dos continentes de aquecimento mais rápido, registrando cerca de 62,7 mil mortes atribuíveis ao calor em 2024.

Um agente de saúde distribui mosquiteiros tratados com inseticida para uma comunidade tribal em uma aldeia rural em Chhattisgarh, na Índia.
© OMS/Atul Loke/Panos Pictures Avanço de eventos meteorológicos extremos intensifica a insegurança alimentar severa e acelera o contágio de febre amarela, malária, cólera e febres de veiculação hídrica

O continente teve um salto de até 450% nos alertas de ondas de calor em comparação aos anos 1990, além do avanço de 297% no risco de surtos de dengue pelo mosquito Aedes albopictus. 

Saúde no centro das negociações climáticas 

Na África Subsaariana, a seca crônica arrasa a agricultura de subsistência, a malária expande-se para regiões de altitude e menos da metade dos países conta com sistemas funcionais de alerta precoce. 

Embora avanços como investimentos em energia limpa e legislações de proteção à saúde estejam ocorrendo, o ritmo atual permanece insuficiente para neutralizar os danos sistêmicos causados pela dependência global de combustíveis fósseis.

Esta realidade torna indispensável colocar a saúde no centro das negociações climáticas internacionais, realçam os especialistas.

Fonte: ONU NEWS

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